Júlio Brandão

 
   Nos sessenta anos da morte de Júlio Brandão, a nossa Escola decidiu lembrá-lo.
   Famalicense de nascimento e de coração, amou a sua terra, lugar de inspiração, tal como todo o Minho.
   O lugar de Talvai viu-o nascer e a saudade da sua terra terá inspirado muitos dos seus escritos.
   A mulher, a família, a ruralidade, temas recorrentes na sua obra.
   Nasceu num município criado pelo liberalismo, terra aberta ao progresso e às luzes, que aproveita estas correntes de pensamento para se afirmar.
   Júlio Brandão, homem culto, não desmerece as suas raízes. E, a nossa Escola faz jus ao seu patrono, quando dá a conhecer alguns trechos da sua obra.

Sabes quem foi Júlio Brandão?

   Júlio de Sousa Brandão nasceu em Vila Nova de Famalicão a 9 de Agosto de 1869 e faleceu no Porto em 1947.
   Em 1874, a sua família fixou residência no Porto e foi nesta cidade que Júlio Brandão desenvolveu toda a sua actividade profissional. Foi professor na escola Infante D. Henrique, arqueólogo, director do Museu Municipal do Porto, sócio correspondente e membro da delegação do Porto da Academia Nacional de Belas Artes.
   Como escritor, deixou uma vasta e variada obra de publicista, poeta e ficcionista, da qual constam as seguintes obras: O Livro de Aglais, Saudades, O Jardim da Morte, Mistério da Rosa Branca, Nuvem de Ouro e Cantares.
   Ele é também artista na prosa, sendo a ele que se devem as místicas cartas de amor, que constituem o romance Maria do Céu.
   Escreveu ainda pequenas obras-primas de uma simplicidade e imaginação encantadora, por vezes aliada ao fantástico. Essas pequenas obras-primas podem ser lidas nos seus livros de contos: Perfis Suaves, Figuras de Barro e Contos Escolhidos.
   Integrou-se no grupo dos nefelibatas e dos simbolistas, colaborando em várias revistas portuenses. Dirigiu, entre 1929 e 1933, a revista internacional Soneto Neo-Latino, com sede em Vila Nova de Famalicão, o que evidencia os seus laços afectivos e os interesses culturais pela sua terra natal.

Humberto Ribeiro, Jorge Miguel, Miguel Ângelo, Sara Brandão, Sónia Alexandra, 7º 4


                     CONTO DO NATAL

   Tristemente, Maria Isabel perguntou ao pai:
   - Porque será que o Gastão não voltou a escrever? Há mais de um mês que não nos diz uma palavra. Sempre tive esperança de que hoje chegasse alguma notícia... Nem um beijo para os filhos, neste dia! Não sei o que me diz o coração... Estará doente? Haveria algum desastre?
   O velho fidalgo, quase imóvel na cadeira de braços, aconchegou mais o capote à cavalaria. Em silêncio, os olhos fixaram-se melancolicamente em alguma coisa longínqua.
   - Que dia de consoada o nosso – tornou Maria Isabel. – Parece que nos pesa um luto muito recente. Tenho às vezes vontade de chorar...
   - É dos teus nervos, filha; vês sempre tudo escuro... Não te apoquentes! Tenho para mim que Gastão escreveu, e que se perdeu a carta, ou estará no correio...
   - Já lá mandei. Não havia nada.
   - Não te entristeças. Estão aí os netos, que enchem a casa de alegria. Eles onde param?
   - A jogar o “rapa” com os pequenitos do caseiro. Até eles parecem outros!
   - Isso é dos teus olhos e do tempo, minha filha. Não pára de chover nem de ventar. Vou continuar a ler o meu Frei Heitor Pinto...
   O fidalgo tirou do bolso um volume que folheou lentamente.
   - Já não vejo. Que dia! Parece noite.
   - Ah! Se ele cá estivesse, que me importava o tempo. Tudo era alegria em casa!
   Uma bátega violenta granizou nos vidros das janelas. Maria Isabel olhava para o jardim, onde a esbelta fonte de granito espalhava à ventania dilúvios de água, bem como aos cabelos desgrenhados de uma náiade... As japoneiras ostentavam as suas camélias dum vermelho escuro, e outras brancas, meladas, a esfolharem-se. Os olhos demoraram-se-lhe, iluminando-se no laranjal cerrado, por onde devaneara com Gastão no seu noivado romântico. Depois a eira, a mancha árabe dos celeiros, os campos alagados e tristes, árvores esqueléticas e mantilhadas em bruma, e o manto longínquo tão azulado nos dias claros, com uma ermida a poisar-lhe como uma pomba branca e que punha agora no céu pesado a nódoa parda dum vago dorso de elefante.
   - Manda vir os pequenos, que eu toco violão para distrair! Queres?
   - Ainda me fazia mais tristeza...
   - Ao menos não se ouvia a ventania a uivar!
   Com efeito, o vento passava nos descampados, gemendo e silvando como um cavaleiro doido, que andasse pelo mundo a carpir um grande amor sepulto.
   Maria Isabel, com os olhos mais cismáticos, saíra da janela e sentara-se à mesa, alheada numa ideia que lhe deixava no rosto pálido uma asa escura e fatídica. Apoiara a cabeça nas mãos esguias e brancas. Na vasta sala de jantar já quase tudo eram sombras pesadas...
   Havia quase um ano que Gastão partira pra o Brasil, chamado por negócios de solução inadiável. Ela fora a bordo despedir-se, com o pai e com os pequenos – e ficara-se depois muito tempo a olhar esse mar imenso, até que o vapor se perdesse no horizonte. A tarde caía brandamente. O vento nem encrespava as ondas que arfavam mansas. Tinha os olhos rasos de água, um soluço a apertar-lhe a garganta.
   - Vamos, Maria Isabel – dizia-lhe o pai. – Não tarda a ser noite!
   Ela queria ver sumir-se de todo esse barco, já mal distinto nas neblinas distantes, em que apenas palpitava uma luz fugidia...
   - Vamos, minha filha, são horas!
   Maria Isabel contemplou ainda, com olhos ávidos, a larga volta do mar, mas a luz apagara-se, como tudo que ainda é doce se apaga na vida... O bojo do barco sumira-se de todo, como se o tivesse tragado um enorme sepulcro, ou se tivesse desfeito em nevoeiro e saudade... A noite sem luar esfumava tudo num sonho prodigioso, que para ela era profundamente elegíaco.
   Chamada outra vez pelo pai, despertara. O oceano suspirava, escuro e triste, desfolhando apenas nas fragas algumas flores de espuma. Ela olhava-o com receio supersticioso. Já um brilho de estrelas bruxuleava nas águas, que a Via-Láctea enfarinhava vagamente da sua poeirada argêntea...
   Maria Isabel voltara com os olhos vermelhos, o peito a erguer-se-lhe em soluços ofegantes. Ao lado, o pai caminhava em silêncio com o neto pela mão. Ela dava também a mão à filhinha, que, ao ver a mãe a chorar, tinha os olhos marejados.
   No dia seguinte regressaram à província – e sempre foram chegando notícias do Gastão, consolando-a, afagando-a de longe, cartas tão cheias de amor e de saudade, que Maria Isabel lia muitas vezes, com um sorriso dulcíssimo. Gastão prometia voltar breve, os negócios não corriam mal. E, como sempre, a sua imaginação arquitecturava romances e entretecia quimeras.
   Mas quase um ano decorrera, e Gastão não voltava. As suas cartas continuavam, porém, longas e certas, desfazendo todas as inquietações de Maria Isabel e vinham cada vez mais impregnadas de amor – quadros em que ela sorria cheia de beleza e de graça, e em que os filhos esvoaçavam como anjos, chamando-o de tão longe, estendendo-lhe as mãos róseas e pequeninas.
   De tudo minuciosamente, ela se recordava nesta véspera de Natal, em que não houvera uma réstia de sol a desvanecer-lhe as apreensões dolorosas. Porque não teria Gastão escrito ultimamente?
A noite descera depressa. O vento, de quando em quando, gemia nas árvores.
   Já não se vê nada, filha; chama os pequenos...
  Àquela voz, Maria Isabel ergueu a bela cabeça de entre as mãos, emergindo das suas recordações. Levantou-se, acendeu os dois grandes candeeiros que haviam de alumiar a mesa da consoada. Foi à copa; da velha arca ela mesma tirou a toalha de linho alvíssimo, trouxe a loiça e os talheres dos dias solenes. Eram cinco os lugares: o do pai, o dela, os dos pequenitos – e o do Gastão que, embora devoluto, lá tinha a sua cadeira habitual numa das cabeceiras da mesa.
   - Joana!
   - Aí vou, senhora, aí vou!
   A velha serva apareceu com os pequenitos que correram para a mãe. Maria Isabel abraçou-os, beijou-os longamente...
   - Veja, mãezinha, veja! – E mostravam-lhe as mãos cheias de pinhões, que tinham ganho ao “rapa”.
   - Então não me dão nenhum, seus marotos? – reclamou o avô, para quem logo correram, estendendo-lhe as mãozitas dadivosas.
Joana explicou que a ceia estava pronta. Maria Isabel foi à cozinha onde a vasta lareira resplandecia, com as achas e as pinhas crepitando num lumaréu benéfico. A caseira aloirava as últimas rabanadas na sertã. Acocorado, o marido espalmava as mãos sobre as brasas. A um canto os filhitos, corados como maçãs camoesas, continuavam a jogar o “rapa”.
   A velha Joana perguntou se podia levar a ceia. Maria Isabel respondeu que sim – mas caiu ainda mais triste. Ali estavam os caseiros e os filhos, naquela comunhão de doçura íntima, e ela mergulhada em sobressaltos e tristezas!
   Dentro em pouco estavam os quatro à mesa. A velha e boa Joana trouxera a travessa em que o bacalhau e as tronchudas fumegavam. O avô revia-se enternecidamente nos três, e dir-se-ia que na sua cabeça de apóstolo se reflectia um fulgor de bondade beatífica. E olhando os netos:
   - Onde estão os pinhões, que afinal me não deram?
   - O avôzinho não os quis – respondeu a pequenita, cujas faces pareciam rosas de todo o ano, e em cujos cabelos castanho-claros brincava um fino raio de luz.
   - É o pai tal e qual – observou ao avô Maria Isabel, que sorriu com tristeza e saudade.
   - E eu com quem me pareço? Com a mãezinha, pois não é? – perguntou o rapazito mais velho que a irmã, uns seis anos encantadores de saúde e beleza.
   Na verdade, os seus olhos negros, os cabelos escuros, a palidez do rosto eram de Maria Isabel.
   Da grande jarra, uma ou outra camélia esfolhava-se. As pétalas punham na toalha manchas vermelhas...
   - Parece vinho, é alegria! – disse o pequenito.
   - Antes fosse, meu filho! – respondeu a mãe.
   O vento sacudiu as vidraças, e ouvia-se nas árvores, soturno, soturno, semelhante a um despenhar de cachoeiras.
   - Que noite, santo Deus! – disse Maria Isabel – Se cá estivesse o Gastão, tinha convidado para o Natal os parentes das Lajes... Assim, para quê?
   A criada entrava com os mexidos e com as rabanadas loirejantes... Docemente, um aroma de canela e mel derramava-se na sala.
   No largo portão ouviram-se três pancadas espaçadas e fortes. Quem bateria com aquela noite? Havia de ser o “João Pobre”, coitado, a pedir de cear.
   Logo que Joana voltou, Maria Isabel inquiriu:
   - Quem bateu? É o “João Pobre”, agasalhem-no, dêem-lhe de comer.
   - Não era: esse estava em casa do morgado, onde o tratavam como um príncipe. Era outro ainda mais farrapão, pedia que o deixassem dormir no palheiro. Ia para Santa Eulália, tão longe!
   - É velho? – perguntou o avô.
   - Muito velhinho e corcovado, até faz dó!
   - Sentem-no ao lume e dêem-lhe de cear. Depois arranja-se-lhe pousada – ordenou Maria Isabel.
   Joana voltou para a cozinha e o avô disse:
   - Estes pobres quantas vezes são quase santos! E eu, que sou velho, tenho uma grande pena dos velhos, e quanto mais dos que mendigam à chuva e ao frio!...
   - E nesta noite de Consoada, quando os outros têm lume e fartura!...
   - Alguns deles contam histórias que nos fazem estremecer e chorar.  Conheci dois que me falaram da vida e da desgraça com palavras que nunca ouvi a mais ninguém. Um, que apareceu há muitos anos (já eu era viúvo, e tu ainda pequenina), deixou-me uma impressão que jamais se apagou da minha alma. Tinha uns olhos enormes e resplandecentes, que o iluminavam, e que doçura na voz! Apareceu também por uma noite de Inverno, todo coberto de neve. O que dizia parecia que vinha de longe, melodiosamente... Considerava-se feliz! Logo no dia seguinte, quando o tempo estiou, quis partir. Mandei-lhe encher o saco; não aceitou. Levou apenas um pedaço de pão... Ninguém o conhecia, nunca mais ninguém o viu. Dizia-se por lá que era Jesus, que vinha mostrar aos ricos e aos maus que a felicidade existe unicamente na grandeza do coração de cada um e na pureza da consciência.
   - E seria Jesus? – perguntou Maria Isabel.
   - Jesus não creio que fosse; era um santo pelo sofrimento, pela humildade, pela resignação, pela bondade sem mácula.
   Os pequenitos tinham os olhos espetados no avô. A mãe, com a cabeça apoiada na mão esquerda, parecia sonhar.
   Então o avô perguntou à Joana se o mendigo estava a cear.
   - Não tinha comido quase nada.
   Estava num escano, ao lume.
   - Diz-se-lhe que venha cá, queres, Maria Isabel? Vamos ouvi-lo... Eles sabem às vezes tão lindas histórias!...
   Pouco depois, o velhinho apareceu à porta da sala. As crianças, ao vê-lo tiveram receio daquele homem de barbas brancas, muito curvo, arrimado a um bordão, que conchegava a capa remendada, a cabeça envolta num velho lenço de ramagens, com um jeito de turbante mourisco.
   - Sente-se – disse o avô, indicando-lhe uma cadeira de espaldas. – Sente-se. É de longe? Como se chama?
   O mendigo sentou-se perto dos pequenitos, que fugiram para junto da mãe, contemplando-o de lado, sempre receosos.
   - Vossemecê há-de estar muito cansado! – tornou o avô.
   O mendigo meneou a cabeça em sinal de assentimento, muito fatigado, sem proferir palavra, de olhos no chão.
   À porta da sala, os caseiros com os filhos e Joana espreitavam o quadro.
   - Quantos anos tem? – interrogou o avô.
   - Não sabia ao certo... Perto dum cento... Era muito velhinho! – murmurou o pobre numa voz branda, muito lenta, mas que fez estremecer Maria Isabel.
   Que voz era aquela, que a obrigou a levantar-se e a ir fixar o mendigo, que irresistivelmente ergueu também os olhos para ela?!...
E a cena foi rápida. Maria Isabel correu para ele, que a enlaçou num abraço longo e apertado.
   - Gastão! Gastão!...
   - Maria Isabel!...
   E logo as crianças se agarraram ao pai. Do velhinho trôpego, sem barbas e desfeito o turbante, ficara a figura esbelta e enamorada de Gastão. De pé, o velho avô estendia os braços sobre aquele cacho de amor, com os cabelos brancos aureolados...
   O caseiro, aos vivas, batia palmas com as grossas mãos que estalavam como matracas. Os filhos pinchavam, gritavam, enquanto a mãe e Joana limpavam as lágrimas às mangas.
   - Bendito seja Deus! Porque não escreveste?
  - Queria dar-te esta alegria, meu amor, fazer-te uma das minhas surpresas... Eu podia lá estar longe daqui no Natal!
   Depois beijou o sogro e tudo foram abraços.
   Ocupando a cadeira que o esperava, Gastão sentou os dois filhinhos nos joelhos.
   Todos os rostos resplandeciam, com os olhos ainda molhados ou enublados de sonho. A sala, pouco antes soturna, naquele Dezembro álgido, enchera-se dum luar de alegria e de amor, que vinha das almas.
Joana, excelente Joana, - dizia Gastão – a ceia recomeça agora! E amanhã o nosso dia de Festa vai ser um céu aberto!

Júlio Brandão, Contos
 

   (Adaptado de artigo publicado no Jornal "Lê-me" do Agrupamento de Escolas Júlio Brandão, Ano 3, n.º 3, Dez/06)
 




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